sexta-feira, 15 de maio de 2015

Susto

Nesta última semana, numa mesa de bar, uma amiga disse que qualquer um conta uma história. Papel e caneta, pronto. Torná-lo convidativo, usando todas as armas para atrair um leitor é que não é fácil. Nada de novo.

Sempre achei escrever algo bastante difícil. Desde quando me pus a escrever, e sempre o fiz com pouca freqüência, faço com receio, tateando, pesando as palavras e muitas vezes negando aquilo que deixei no papel. Se todos têm um ritual, eis o meu: falar para não ser descoberta; com um vocabulário ainda tão magro, mesmo com as parcas possibilidades que encontro, dentro delas eu procuro a menos luminosa, aquela que me faz dizer o que desejo mas que parece sinalizar o contrário, e que me faz distanciar daquilo a que me propus.

Quando decido escrever, a imposição já se deu mesmo antes de eu assinalar a primeira letra. Invariavelmente, a minha decisão por escrever sobre algo nasceu no instante de algo novo, repentino, a coisa abrupta, aquela verve pela qual nem esperava. Então, é no escrever que por muitas vezes encontro o caminho para a adequação.

A realidade com que me deparo continuamente, e sobre a qual retomo com frequencia, é a falta de palavras para expressar determinadas posições, como um trauma – quanto mais se descreve, mais longe da realidade está, não parece ser autêntico -, me encontro diante deste instante. A consciência me dá uns solavancos, grosseiros e indelicados; retomo a mim, me julgo. Estou diante da alteridade, nela eu sou, sou eu ali proferindo diálogos enquanto estou sozinha em casa, ante meus fantasmas vivos. Desafio e calo, grito e depois lágrimas.

Sinto os pés em carne viva, pisando em espinhos mal-entendidos e juntando vírgulas para somar à boa de vontade que se dissolve com os ponteiros do relógio. À mesma medida em agonia, me dou conta de que não há como anular as experiências que os retratos antigos silenciam – justo aqui chega o abismo das palavras. 

Assino sem passar por mim.


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