domingo, 16 de fevereiro de 2014

Domingo

Jeff Wall - A Sunflower/1995


Domingo, quase fim de férias. Levantei da cama quase ao meio-dia. Fui ao banheiro carregando o longo espelho. Desfiz-me da toalha, conferi a barriga e o tamanho dos seios. Talvez não esteja grávida, parece tudo tão normal. Saí do banho sem ter alimentado nenhum pensamento enquanto me ensaboava ou fechava a torneira do chuveiro.

Peguei um vestido qualquer, pus um filme e voltei a deitar. Reconheci num clarão que isso é também liberdade e que por hora me basta. Não tive intenção alguma de questionar a mim sobre o que faria na segunda-feira próxima.
Play, pause. Algumas ligações de longe sobre o fim de semana, "tá tudo bem". 
Desde que desliguei o telefone não mais ouvi minha voz por horas. Estou sozinha, e mais que isso, me sinto só. Apesar das conotações down que cercam a palavra solidão, para mim está tudo ok. Tudo bem, é razoável, é moderno, sinto-me lúcida com a cabeça repousando sobre o travesseiro.

Na juventude parecemos ter a ideia de que todas as relações são inseparáveis. Às vezes sinto que me antecipei a tudo isso, e ao contrário, em dias como hoje, o silêncio e a falta de explicações corriqueiras são sinônimo de conforto.
Me apavorei inúmeras vezes ao fim dos anos letivos, mais adiante, com o mudança do local de trabalho. Apenas hoje, com o semblante mais quieto e calejado, venho lembrar as palavras da minha mãe, "você não será a primeira a passar por isso".
Questionei inúmeras vezes por não "ser os outros", por ter percepções e reações peculiares, além de uma inteligência emocional abaixo de zero. Sei que um dia tudo isso passou, nem recordo sobre o dia em que levantei tranquila da minha cama e tudo já tinha se tornado habitual.

 Hoje vivo olhando minhas paredes e desejando que elas fossem mais distantes, mais largas... Quero pôr quadros, pender umas estantes para os meus livros e filmes, um banquinho no canto da sala, umas cortinas bonitas, essas coisas de ter um apartamento com personalidade e aconchegante. Toda essa coisa custa uma grana, pensei em comprar telas, tinta e molduras, fazer um negócio legal como o que vi num filme dias desses.

Volto a sentir sono. Será uma boa. Meus planos mais deliciosos surgem enquanto durmo.


2 comentários:

Gabriele Fidalgo disse...

Ao ler seu texto consigo sentir a maturidade e o bem estar com o que escreveu. A vida não precisa ser perfeita para ser boa e nem sempre rodeada de gente.
Pessoas como nós já possuímos muitas vozes, ideias, pensamentos e emoções.

:)

Lê Fernand's disse...

estou nesse dilema: quadros e paredes. :)

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