quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Tardes raras

                    Eugène Delacroix                   


   Para J.O.

Aos vinte anos eu acumulava mais exclamações que vírgulas. Deve ser estupidez a essência da juventude.
Mas há a gente que faz as pausas reflexivas e dentro delas é que habita o pensamento de que o outro se poupa - e fazem melhor que o ignorante, como eu, que se coloca como o parâmetro do normal, que se vê como a criatura mais natural enquanto é só mais um imbecil egocêntrico.

Anos depois dos acontecimentos que são o cerne dessas linhas pouco claras, me pergunto com muita freqüência sobre as razões pela quais existe a necessidade de amparar nosso próprio ego nas distinções de outrem, nos nossos ídolos. Questiono também sobre o imperativo de diferir-se dos outros, de verbalizar na primeira oportunidade tudo que achamos nos tornar diferentes, enfatizando nossos excessos e incongruências - a tentativa ridícula e abusada de tornar a si próprio um ícone. As contradições são neon diante da minha vista, são um cão um latindo dentro da minha cabeça.
Enfim,
refiro-me a você, certa menina que habitou minha rotina uns anos atrás; quanto a mim, não sei o que fui feita dentro de sua vida... Dela eu gostaria de ouvir sua história a cerca da época da faculdade. Descobrir que impressões ela guarda em suas memórias, se foi tão feliz, porém, se existe um “mas” em algum momento de sua narrativa. Sobre o momento em que deixamos de ser um plural.

Naquele tempo rasguei em direção a ela inúmeros arroubos de semântica sem nenhum fundamento, vi piadas diante dos meus olhos enquanto o melhor era ter mesmo ficado calada. O silêncio é prático, é maduro. Descobri isso anos depois, não recordo e nem se faz importante quais foram as circunstâncias.
O fato é um arrependimento sobre a minha consciência e a lucidez que me invade como uma faca por que não tenho mais a possibilidade de recolocar pausas, de reconsiderar algumas colocações ou mesmo de interferir apenas com o sempre bem incumbido silêncio.
E há a dúvida, esse demônio que me assusta, me encharca de lágrimas, de dores e de constrangimentos. Não tenho sequer a sorte de cruzar o caminho daquela garota. Talvez seja um apelo inconsciente ao universo e ele tem me atendido, tenho o receio de que qualquer saudação efusiva tenha ares de surtos desnecessários, pouco verdadeiros. É justo por isso todo o meu medo, o meu receio - a falta de conhecimento do que são as verdades dentro das lembranças dela.
Se acreditar em Deus e no destino pode me servir de consolo, então todo o recorte da presença dela em minha vida foi a medida perfeita - “Ah!, era pra ser assim”  – é tudo de que preciso. Mas os ecos de sua aparência em mim negam tudo isso, recusam a finitude da convivência que construímos, o meu interesse do que tem feito em seu dia-a-dia não deixam a história chegar ao fim, e maior que isso, se tornam labaredas todas as vezes que escuto notícias suas, todas as vezes que seu contorno me invade o pensamento.
Dentro da amizade há espaço para o esclarecimento das razões, para o perdão, caso ele tenha cabimento, mas antes de tudo isso, e é aí que deposito minhas esperanças – existe sempre o espaço para uma conversa franca onde possamos enfiar o dedo no rosto, para as acusações viscerais. Pelo amor de Deus, um espaço para as verdades! E assim, o fim das minhas perguntas, eu gostaria de um epílogo. E que ele não demore.
Poucos anos depois venho construindo meu compromisso com a simplicidade e desprezo pelas pretensões - desacredito nas utopias dos homens especiais, dos tratamentos esnobes, da casa que não lhes cabe, do estúpido e vaidoso que passa por incompreendido; tolerância e humildade sempre couberam em toda parte. 

2 comentários:

Urbano Gonçalo disse...

Ola´!
É sempre bom ler-te!
Quero desejar-te um Feliz Natal e um Bom Ano Novo também!
Ele que te traga por aqui mais vezes ...
Beijinhos, fica bem.

Gabriele Fidalgo disse...

Cada palavra, vírgula, espaço e estrofe carregam tanto sentimento, tanto!

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