quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

O golpe

Edward Hopper - Room in Brooklyn/1932


Depois de um dia de festa eu a vi. Tinha os olhos escondidos por trás dos cabelos. O sorriso já não estava tão alto, seu olhar acompanhava os gestos daquela gente. Ela me disse que parecia não reconhecer quem eram aquelas pessoas, que os rostos deixaram de ter fisionomias conhecidas, e tampouco aquelas histórias que eles contavam eram familiares. Não havia graça alguma, pois toda aquela comédia tornou-se trágica, não distinguir as piadas é o motivo do infortúnio.

- Que coisa mais terrível... – ela disse, reticente, bem a seu modo.

 Surgiu essa sensação sem um nome, isso que ocupa um espaço por dentro, onde ela não sabia me dizer ao certo. Um gelo no peito, um mal-estar no estômago, a ânsia da vida dentro barriga. Dores físicas não tão facilmente descritíveis e sem a perspectiva de cura pragmática. Uma pílula, um buraco, uma palavra, um afeto qualquer podem ser a saída. Ou o relógio.

Guardei para mim que o inferno às vezes cabe bem dentro do nosso peito e tenta furtar todas as boas razões que podemos encontrar nos dias futuros.

Ao fim da tarde ela caiu no sono. Nos encontramos horas depois. Estava assustada, mas de peito aberto: 
- Sonhei que fazia preces, estava só, dentro de uma igreja. Um teto alto, me senti acolhida e vigiada, perto de Deus.  

- Não se sinta só, tenhamos fé e paciência. Essas agonias são perecíveis.

Deve ser vida a luta pelo controle dessa euforia, a tentativa de aprender a nos encaixarmos dentro do tempo e nas horas cruéis onde não temos medo do mundo, mas só de nós mesmos.

Para a noite te desejo que expulse as ânsias e que teu sono se transforme nos versos da canção: “mas se eu tiro do lamento um novo canto/ outra vida vai nascer [...] Fazer desse chão minha vida”.

- Tenhamos fé, então – dissemos, numa prece mútua.

3 comentários:

Ananda Sampaio disse...

Sei... e como sei. Te amo,bjo.

Gabriele Fidalgo disse...

Nossa, Lu!! Nossa!
Que texto tão profundo, aberto, rasgado e bom de se ler! Sentimentos imensos demais para caber em espaços pequenos. Intensidade extensa que não pode ser abatida ou ignorada.
Tudo isso nesse belo texto!
Muito bom, muito bom!! Palmas!

Beijos!

Gabriele Fidalgo disse...

Ah! E voltamos para um lugar de onde nunca saímos. De onde nunca se quer poderíamos sair, já que faz parte de nós. Acredito que escrever com todo o sentimento do mundo é uma espécie de extensão do corpo, um 7º sentido, uma dádiva para peitos encharcados e que transbordam.

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