quarta-feira, 24 de abril de 2013

Discurso iminente

Segunda-feira dá um samba, é só cuidar de cada detalhe. Pensei que essa poderia ser minha nova profissão, compositora de sambas. Mas eu não sei se teria tempo para me dedicar aos desenhos infantis, outra profissão que me cairia como uma luva, desenhista de gravura de livros infantis. Sempre penso nos meus filhos e no modo sutil que me faria aproximar do universo das minhas crianças. Ser menino não é travessia das mais fáceis.

Além desses desejos falhos e vagos, tenho andado frustrada por escrever o meu diário, há páginas vazias, reticentes, há círculos repetitivos quase rasgando o papel, como se eu só gastasse a tinta da caneta. Às vezes me sinto só e rogo ao Deus que o telefone toque, talvez uma boa conversa me servisse bem mais que a frustração de tentar escrever uma página qualquer da compreensão que tenho do que é a minha vida.

Longe do isolamento que vivi, tenho tentado estreitar laços e ampliar os meus olhos diante do outro, se o inferno são os outros, deles é que necessito, no outro também vivo e permaneço. Não cabe mais em mim a fuga das razões alheias, o silêncio deve ser soar como uma imensa ignorância. E se há a palavra e as ações alheias, delas é que me alimento, delas me visto e também crio o esboço das experiências, trago para mim como se também fosse meu, de certa forma as transformo numa substância minha.

Se algum dia eu pudesse sonhar com a minha vida de hoje, talvez eu pudesse ter mais precisão de sua materialidade através das palavras maternas, sorte que tive, pois minha mãe sempre teve imensa sensibilidade, e me revela até hoje, me revela ontem, e me traduz de um modo que talvez nem eu saberia como dizer a alguém de modo tão credível. Como a um velho de barbas brancas cabe o respeito inerente à sua maturidade e experiência, as mães são absolutas e críveis desde o parto.

De repente me chega a ideia de que preciso realmente parir, se por algum acaso natural essa é uma das missões da natureza da mulher, devo ter filhos, me torno mais assertiva no que posso dizer sobre o homem e suas verdades.

Se trago algo bom para que seja mantido através do meu sangue, devo impor menos por ele e mais pelo que vejo da vida, mais pelo que posso provar e menos pela moralidade. Se eu disser quaisquer verdades minhas, o tempo ou também a compreensão daquilo que tenho de tempo poderá trair-me e já sei que os filhos não serão só meus, que minha palavra um dia não será a mais integral, que tantas verdades não serão mantidas.

Como eu mesma posso constatar num exercício superficial de releitura da minha própria fala, não consigo ao menos manter a linearidade a que me propus antes de escrever esses poucos parágrafos; mas de certa forma talvez isso justifique o fim que pode chegar descabido - são palavras sinceras e de acordo com um desejo que venho tentando sorver e tornar natural - ser real, ser gente.

4 comentários:

Anônimo disse...

Muito lindo seu texto, meu amor! Daquilo que compreendi, claro. E logo satisfarei seu desejo de ser mãe. Te amo! Bjo.
Celso Costa

Ananda Sampaio disse...

Lindo texto, Lu!Só vi teu comentário agora!Foi uma energia mesmo.... ;)

Ananda Sampaio disse...

Lindo texto, Lu!Só vi teu comentário agora!Foi uma energia mesmo.... ;)

Urbano Gonçalo disse...

Olá amiga!!
Faz tempo não?!!
É sempre um grande prazer passar por aqui e ler um texto destes.
Espero que agora eles sejam mais assiduos!
Bj, fica bem e ... aparece quando quiseres, és sempre bem vinda.

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