quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

O fim revisitado

Paul Cézanne


"Nada há de mais belo e legítimo do que o homem fazer o bem e como deve ser,
nem ciência tão difícil do que saber viver esta vida bem e naturalmente;
e, de todas as nossas doenças, a mais terrível é desprezar o próprio ser."
Michel de Montaigne



As coroas murchas que ainda não vi rondam meus sentidos, sei de cada uma delas, o cheiro das flores me evoca a vitória da morte.


Pelo meu caminho perco o sentido, dou um passo, retorno em seguida, não há gracejo nas ondas. O mar verde ao longo da estrada é a natureza que não exploro; é minha própria natureza - inércia, a eterna sensação da festa existente para a qual não fui convidada, o arrependimento das palavras ditas, o desejo de ser invisível, a segurança nunca alcançada.

Em meio às minhas vãs tentativas de saber de que massa sou feita, fecho os braços e me prendo ao que já vi, revisito antigos poemas incompreendidos, releio as palavras atropeladas e desconexas dos antigos diários, procuro desesperadamente os mesmos discos que escutava nos primeiros anos de infância conscienciosa, e tudo o que consigo alcançar é uma enfadonha percepção pessimista sobre as minhas tentativas de sobrevivência.


É certo, Deus, que vou perder meus amigos e os melhores amores que já pude carregar dentro de mim, eles se vão a cada dia, são gotas da minha essência que o tempo gasta, desbota; minha memória torna-se uma derrota, um ajuntamento contra mim, madrugadas taquicárdicas, a iminência de notas suicidas. Eu me entrego, devo preservar meu silêncio, o último passo antes da desistência é atirar meu corpo ao rio que já sabe onde irá desaguar - é a própria vida que se sabe a cada instante a um passo da indomável cova de mim.


Quero descanso mas não encontro lugar, diante de todos os olhos pressinto julgamentos, me obrigo a explicações, necessito ser boa. Não há lugar para mim, tomem o meu prato de comida, guardem meus poucos livros, levem as palavras que ainda restam, descubram a semântica que não encontrei. Deixem a poeira encarregar-se de providenciar o meu esquecimento - meu lar.

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