terça-feira, 4 de outubro de 2011

Outra margem

Brassai



'e quando eu tiver saído
para fora do teu círculo
tempo tempo tempo tempo
não serei nem terá sido
tempo tempo tempo tempo'

- Caetano Veloso



É como se tudo isso fosse uma cólera que invade meu corpo e minha alma, quando minha cama se torna minha cova ainda em vida. Sou abatida por um silêncio involuntário, minha visão se torna opaca, minhas mãos não conseguem ir além do mesmo desenho que reproduzo desde a minha primeira infância.
A minha força está no mesmo lugar em que deixei anos atrás, detida sob folhas de calendários. Não pergunto, não canto, ninguém me escutaria. Vejo muita gente e quase ninguém me vê - essa situação é muito cômoda, penso. Poucas explicações, quase nenhum entendimento do que carrego boca adentro.
Cansei de piadas, cansei das palavras certas grafadas entre aspas que o mundo inteiro espalha enquanto tenta gritar e dizer: 'me veja, sou alguém'. Eu não sou ninguém, não sou nada e estou sozinha desde o dia em que nasci até minha mortalidade.
Quero me perder do que tenho aqui dentro ainda que não tenha a menor certeza se sou em quem carrega minhas emoções ou se são as emoções que me carregam.
Sou várias e não sou nenhuma, sou órfã do mundo, igual a cada um de meus pares - que tem medo da humanidade mas sente amor por ela e pelo mundo.
Quem sabe um pouco mais de nexo, algo mais tangível, respostas com um ponto final sincero mas há um enorme receio em saber que o fim sou eu mesmo. Meu princípio, meu fim, meu quadro, minha cançao, o verso de minha poesia - sou eu sozinha.

Um comentário:

Ananda Sampaio disse...

Lindo e cruel...mas, existe sim beleza na crueldade do mundo e da nossa própria existência.A imperfeição das coisas e de nós mesmos é que traz a tona a riqueza da poesia. E estamos só sim, só no nosso vasto mundo interior, só nas nossas ações e mais só ainda no resultado de nossas escolhas...
te amo!
=*

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