quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Agosto passado

- Você tem essa noite inteira pra dizer, pra estar aqui. Falar mais que os olhos rápidos, traduzir mais em palavras do que os gestos nervosos das tuas mãos, tira essa ânsia, deixa essa náusea esvair-se junto com esse vômito doentio das verdades. Os medos pueris de escuro e silêncio não foram embora assim como o sorriso que conserva a leveza da pouca idade.

- É que enquanto penso sobre estar indo embora dessa cidade, passei a entender que as escolhas mais importantes de nossas vidas serão feitas em absoluto por nossa consciência e não sob a chancela de alguém ou algum conselho. Passando dos vinte e poucos me dei conta de que não posso mais viver saltando sobre poças d’água.

O tempo é um sopro mais rápido que a infância, abro as mãos e não vejo nada palpável. Noites e dias rápidos, tanta gente pelo caminho, crescemos dentro de nós mesmos, a gente se enche de perguntas sobre nós e sobre os outros, sobre o sentido de estarmos todos aqui...

Noite dessas um peso instalou-se em minhas costas, algo triste, bastante aprisionado - meu sorriso me custa caro, meus silêncios e olhares sobre o cotidiano, sobre o mundo e as pessoas me causam certa dor e desconforto. Esse peso talvez fosse minha alma tomando nova forma, assimilando talvez as palavras de uma certa mulher de Lispector que me invadiu com a sua "pior vontade de viver", absorvi esta sensação de modo incomunicável.

Há ainda as pedras de Virgínia Woolf e suas razões que mais cabem em mim - do quanto vivemos pelos outros, do quanto nos mantemos vivos pelas pessoas... Observe severamente essa rotina crua da qual somos cria: dias iguais, as pessoas de um lado pro outro. De repente me dei conta de que se eu, você ou qualquer outra pessoa não estivesse ali nada pararia, seria a mesma coisa, somos uma massa de verdade. Umas máquinas, vem outra e substitui. Coisa mais sem sentido, sem graça, sem importância. Nos punimos em busca de redenção. Como se fôssemos seres vulgares, tal qual essa nossa conversa. Não sorria. Dentro desse abraço me sinto salva de mais esse dia que já chega e nos invade.

- Não tenho salvação, sequer posso tentá-la. Antes de irmos, que tal Pessoa? "Vede, vede, é dia já... Vede o dia... Fazei tudo por reparardes só no dia, no dia real, ali fora... Vede-o, vede-o... Ele consola... Não penseis, não olheis para o que pensais... Vede-o a vir o dia... Ele brilha como ouro, numa terra de prata. As leves nuvens arredondam-se à medida que se cobrem... Se nada existisse, minhas irmãs?... Se tudo fosse, de qualquer modo, absolutamente coisa nenhuma?"

- Talvez.


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