terça-feira, 21 de junho de 2011

Para ser franca

John Singer Sargent



'Realmente, só pelo fato de ser consciente das causas que inspiram minhas ações, estas causas já são objetos transcendentes para minha consciência; elas estão fora. Em vão tentaria apreendê-las. Escapo delas pela minha própria existência. Estou condenado a existir para sempre além da minha essência, além das causas e motivos dos meus atos. '
Jean Paul-Sartre
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Talvez todos nós tenhamos vivido alguma estação de escolhas, um ciclo de vivências, uma cadência de dias com sucessivas histórias e que ligando cada uma delas pode tornar-se uma história apenas. Mas até a sua vida mudar você não se dá conta disso.

A minha estação foi quente, um curto verão anos atrás. Comecei a viver o que somente hoje, depois de desvendá-lo e perdoar-me, posso chamar de uma série de equívocos, ainda que eu estivesse de certa forma transbordando de felicidade naquela época. Felicidade. Feliz idade.

Bravamente apaixonada, assustadoramente e com tudo o que uma paixão poderia causar-me, entre clímax de alegria até os gritos de horror quando me descobri só. Dentro de um relacionamento sem paz, vivia sobre a linha tênue entre a inocência e a malícia. De perto "eu te amo" mas viver longe eu não queria. Só o que bastava era estar dentro daquilo tudo que eu mais quis na vida, Doce.

Sem dar-me o tempo necessário para tragar minha história e seus meandros, sem parar pra refletir para onde eu caminhava, sem inspirar e expirar os menores desentendimentos, sem paciência para entender que ainda teria todo o tempo para ter a felicidade que ainda não tinha chegado em seu tempo certo fui desbravando o que havia de mais dolorido, fui em busca de mais problemas, vivia de urgências intangíveis.

Envelheci porque vi muitas madrugadas nascerem e morrerem, estive mal porque perdi minha sobriedade, estive só porque não queria escutar nada além das minhas próprias vozes. Sucumbi nas horas erradas e facilmente... Deixei escapar olhos compadecidos de quem tinha palavras certas pra minha vida torta. Fui embora de casa, fui embora de mim; naquele verão eu ia perdendo a cada dia os frágeis elos que ainda me mantinham de forças para lutar pelo que eu mais queria. O mais certo era esperar. Eu desesperei.

Aquele meu verão trouxe infortúnios e tenho a absoluta certeza de que um dia eles baterão à minha porta, entrarão pela minha janela enquanto penso no que foi feito da minha vida até hoje, o que fiz naquelas horas que já foram gastas.

E sobre perdoar-me... Precisei compreender que não poderia ter sido de outra forma, fui o que eu era naquela estação, afinal de contas, já diria García Marquez, "a sabedoria é algo que só nos bate à porta quando não nos serve de mais nada".

Assumo cada erro, as madrugadas, os passos infalsos, os goles em que eu me afundava, as ligações fora de hora, as cartas perdidas. Assumo meus monstros, os vejo quase todas as noites.
Não sei o que poderia fazer por mim mesma, egoísta. Exatamente por isso vejo todos os dias você caminhar, me olha, sorri mas não me dá a mão. Segue adiante.
Caminho só.

4 comentários:

Ananda Sampaio disse...

lindo!e não como voltar... não sei se isso é bom ou ruim.Sei q esse jeito mandão da vida de só ir em frente nos obrigar a tentar reatar o que fizemos e a q lugar chegamos. Não sei se é triste, sei q é cruel o gosto amargo dos erros q não podemos apagar.Apenas diluí-lo dentro de nós mesmos na esperança q uma dia esse gosto desapareça!
te amo,
=*

Myself disse...

Que forte!

Guilherme disse...

Assumir é acolher sombra como ponte para lugar claro a embalar o coração.

elke julie disse...

Maravilhoso!!!

E às vezes não conseguímos nos perdoar, muito menos esquecer e o mais assustador de tudo: pagarmos o preço mesmo depois de estarmos conscientes do que fizemos. Essa consciência deveria ser o pagamento final não é?

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