terça-feira, 14 de dezembro de 2010

A casa no centro da minha cidade

Foto: Jan Saudek, 1975

Estou só e sonho saudade.
E como é branca de graça
a paisagem que não sei,
vista de trás da vidraça
do lar que nunca terei!
Fernando Pessoa



Antes de mais nada:
"alguns detalhes se desvaneceram, a saudade permaneceu" Gustave Flaubert.
_
Aconteceu bem no dia em que passei em frente a tua antiga casa, aquela antes cheia de gente. Eu sinto, até pelas tuas palavras, pelas fotos espalhadas, pelo cheiro do céu cinzento, que deve doer ver aquela casa enorme, hoje uma lar de todos ou de ninguém. Deve doer porque foi imposição, porque tiveram que sair, porque doía estar dentro dela, deve doer mais ainda porque aquela casa é que está dentro de você. E dentro de mim há você e aquela casa das antigas.

Eu não dividi quase nada, inclusive posso estar pensando o que nem existe razão de ser, porque conto o que há de triste, mas eu sei, absolutamente, que não doeria se antes de tantas dificuldades você tivesse sido tão feliz ali dentro. Espaço pra quem chegasse, filhos, amigos, namoradas, netas. A piscina, a escada, a varanda, a cozinha, o eco do sotaque de todos vocês. A vasta quantidade de despedidas e retornos, gotas do mesmo sangue em diversos lugares, mas o pulso de verdade, toda a força estava ali naquela casa. Porque os caminhos e descaminhos sempre apontaram pra ela.

Eu mal sabia caminhar ali dentro, uma vez, um ano antes, estive ali, mas como nesse mesmo ano antes as coisas por ali já estavam mudando, foi como se eu pudesse ver os móveis espalhados pela casa, uma bagunça terrível, um papel importante encontrado debaixo duma bola de basquete jogada num quarto tão vivo de lembranças. Eu senti. Deve ser coisa de quem tem a família bem grande. Eu ouvi poucas histórias, eu não fiz parte, conheci pouco. Pouco soube sobre em que momento estender a mão, coisas tão íntimas que não se sabe o que é piada ou que é pra ser levado a sério. Mas eu fui comovida por todos vocês.

Eu sempre fiquei meio boba com a capacidade de vocês irem embora, eu pensava em dizer “não vai, fica aqui”. Mas são coisas de família, eu sei que há um ditado, não sei qual, mas lembrei e deixei as coisas quietas. As coisas sempre funcionaram bem assim. E até hoje. Talvez eu quisesse ser assim também, desapegada da presença física das pessoas que amo, e digo ainda mais, aquelas pessoas de quem preciso pra viver. Ou precisamos só de nós mesmos? Creio que não. Talvez eles creiam exatamente o contrário. Mas eu, digo aqui, até cheguei a concordar de certa forma, pra você ser feliz, aqui, na Itália ou qualquer lugar onde as coisas dêem certo, melhor ir em frente - porque era para aquela casa que eles sempre voltariam. Mas hoje não voltam mais, um deles, agora para sempre. Depois, cada um. Nem eu poderei um dia mais.

Eu estive naquela casa. Ela era enorme. Lembro de alguns detalhes - havia algumas lâmpadas queimadas, de outros cômodos lembro apenas da porta entreaberta, de uns quartos em que dormi, lembro das poucas vezes em que te vi correr naquela escada e brincar comigo. Na verdade, eu tinha medo de estar só porque eu sempre tive medo de pensar em qualquer coisa má, ali havia olhos protetores, pelo menos uns 11 anjos da guarda. Eu me mantinha em silêncio por muitas vezes, ouvindo, olhando, esperando. Percebendo o cuidado sem pretensões, havia muitos adultos, a benção era duas crianças, duas meninas, de modo que tudo deveria ser o mais doce possível. Espertas como definia o sangue, eram de por a pensar uma adulta medrosa de 20 anos de idade - e não será pra menos, ali haverá fortaleza, duas, pelo menos.

E com o tom de voz contido, os gestos amarrados, a barriga semi-cheia, compassadamente, me punha sempre em meu lugar, que era ser uma das pessoas desapercebidas que passaram por ali. Como tantas que passam hoje por aquela casa sem saber que pisam no rastro de sangue forte.






7 comentários:

Cynthia Osório disse...

saudadee é coisa de quem viveu! Coisa de quem foi feliz!
Bjos, Lú!

Myself disse...

Que forte!!
Me fez lembrar de um apê que morei um tempão com minha família, e por problemas financeiros fomos obrigados a vende-lo... ele era enorme e ficava perto da praia, de lá mesmo vc via o mar... foi muito duro sair de lá, passamos alguns anos bem tristes com saudades dele.

Um beijão,obrigada pela visita e vou te linkar porque adorei seu blog!

Sasha Portrait disse...

adoro lembranças de lugares, de infância, de felicidade, de sentimentos... sim, lembranças são interessantes até mesmo as tristes, embora as felizes sejam mais cativantes ao coração.

nostálgico, e traz uma boa sensação. =] gostei.

Daniel disse...

Me deixou triste essa postagem, porque estou a pouco tempo de me desfazer da minha casa. Aquela em que morei por 30 anos. Tudo um dia passa.

Daniel

Luciano Fraga disse...

Deliciosamente bem escrito e um recheio de saudades de mil vidas passadas...Belo , muito belo o seu espaço, começando pelo próprio nome, abraço.

gabs. disse...

importante mesmo são as lembranças vivas.

Máaaaaarciooooooo! disse...

Lú, parabens, belissimo texto.

Você conseguiu permanecer no seu tom intimista mas descrevendo coisas,sons,cheiros,ficou muitooo legal. Deveria investir mais nessa técnica.O jogo de palavras também ficou bem arranjado, sem soar "trocadilhesco".

Lembrou-me o estilo de prosa do H. Dobal, talvez você não conheça, mas caso tenha oportunidade,procure um livrinho verdinho em prosa (dele) que é uma delicia.

Beijão!

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