sábado, 27 de setembro de 2008

Do querer


"Por trás do que acontecia, eu redescobria magias sem susto algum. E de repente me sentia protegido, você sabe como: a vida toda, esses pedacinhos desconexos, se armavam de outro jeito, fazendo sentido. Nada de mal me aconteceria, tinha certeza, enquanto estivesse dentro do campo magnético daquela outra pessoa. Os olhos da outra pessoa me olhavam e me reconheciam como outra pessoa, e suavemente faziam perguntas, investigavam terrenos. [...]"

Caio Fernando Abreu





Ela estava ali sentada naquele banco que senta todos os dias. Havia acabado de se dar conta que estavam presentes um na vida do outro cotidianamente. Mas não queria crer que fosse o 'hábito' de se verem todos os dias, o único laço que os prendia.
Não, não era assim, era um querer além disso, um querer muito grande, desejo de estar perto além dos limites de horários aos quais estavam subjulgados.

Bem, não sabia se era exatamente isso, mas que pelo fato de não terem se visto conforme algo que havia sido implicitamente combinado, ela ficou inquieta.
O esperou, tentou provocar um encontro ocasional, invadiu lugares em que ele poderia estar, trilhou o caminho pelo qual ele passa todos os dias. Só para vê-lo.

Quando o visse, ela se esconderia, como tantas outras vezes já o fez. Mas claro, sempre faz as coisas de um modo que ele a veja, deixa um sinal para que a perceba. Quando ele a visse, sorriria, olharia para aos lados, e quem sabe, se não houvesse ameaças, ele a chamaria. É assim que acontece sempre, todos os dias.

Esperava por ele vindo de qualquer direção, o seu olhar a procurando, a ligação no meio do dia ou da noite. Esperava pelos momentos que estariam juntos, quando ele lhe dizia "quero estar sempre falando contigo, sentindo teu perfume, apreciando tua elegância, tuas caras e bocas. Tuas poesias, que falam tantas coisas bonitas sobre nós! Ouvir tuas frustações, tuas vitórias, alegrias, e conversar amenidades."

Era assim a forma de terem um ao outro: pequenos pedaços, momentos aleatórios, ocasiões inesperadas.
Há tanto a dizê-lo, mas quando ela o tem ( porque dentro das limitações de cada um, nesses momentos ela o toma para si) não há espaço para nada além das conversas em voz baixa e do prazer de estarem juntos.
O que ele precisa saber, acaba ficando para outros momentos, desabafos.
Os segredos ficam entre ela, a caneta e o papel.



Luciana Lís

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