Você é o homem de chapéu panamá saído de um romance noir dos anos de 1930, é o marinheiro tatuado com as histórias mais fascinantes dos lugares aonde nunca fui, é o soldado vanguardista que faz em mim a mais linda revolução das flores, é meu companheiro de café numa tarde de céu cinza, é o refrão da música mais bonita que escuto repetidas vezes, você é a morfologia do meu amor, é meu frenesi para as madrugadas de sábado, você é o meu lar e sou etnocêntrica, é meu segundo idioma. Você, meu amor, é o próprio epílogo dos meus vinte e poucos anos.
On the road
domingo, 29 de janeiro de 2012
O que eu também não entendo
"Dentro de nós há uma coisa que não tem nome,
essa coisa é o que nós somos"
- José Saramago
Ao observar a natureza e o homem torno-me de forma inerente parte dos verbos de ação que conduzem o universo, sei que assimilo através dos contornos diários um conhecimento pífio sobre a realidade humana - jamais saberei de modo palpável o funcionamento de todo esse cosmo, terei apenas muito humildemente a previsão de alguns fenômenos gerais: os dias de perder, de viajar, parir e outras tantas armadilhas óbvias e disseminadas dentre toda gente.
Vejo os homens debruçados diante de fórmulas, defensores de histórias vulgares, trajetos perpétuos, e quando inadvertidamente declinam diante do amor, da cólera, da pena, são o próprio atropelo diante da emoção inesperada, abalroados pelo susto. É bem possível que este seja o primeiro tracejo da massa da qual somos feitos, meus desejos silenciosos determinam acertos e erros que carrego ao longo da vida.
Diante das janelas, do alto de um balão, vejo que não somos uma tautologia, nada nos adequa e diz tão facilmente quem somos. Não sou cruamente um ser empírico e é certo que minha existência é cada uma de minhas possibilidades: ser, perder, diminuir, permanecer viva ou não.
sábado, 28 de janeiro de 2012

"Um dia sonhei que estava nu num jardim e que cuidadosa e completamente me tiravam a pele como a um fruto. Não ficou nem um resto de pele no meu corpo. Foi toda mas toda retirada com cuidado e só depois me disseram para andar, viver e correr. A princípio movimentei-me devagar, o jardim era tremendamente macio e eu sentia de uma forma precisa o jardim - doçura, não na superfície do corpo, mas atravessando - me o ar doce e os perfumes, como agulhas penetrando todos os meus poros em sangue. Todos os poros estavam abertos e respiravam calor, doçura e cheiros. O corpo totalmente invadido, penetrado, reagindo, a mais pequena célula e poros vivos respirando e tremendo com prazer. Gritei de dor. Corri. E ao correr o vento chicoteava-me e as vozes das pessoas eram chicotes dirigidos a mim. Ser tocado! Acaso sabem vocês o que é ser tocado por um ser humano?"
- Anaïs Nin
sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

"Sou apenas uma gota a mais no imenso mar de matéria, definida, com a capacidade de perceber minha existência. Entre os milhões, ao nascer eu também era tudo, potencialmente. Eu também fui cerceada, bloqueada, deformada por meu ambiente, pela manifestação da hereditariedade. Eu também arranjarei um conjunto de crenças, de padrões pelos quais viverei, e no entanto a própria satisfação de encontrá-los será manchada pelo fato de que terei atingido o ápice em matéria de vida superficial, bidimensional – um conjunto de valores.
Meus Deus, a vida é solidão, apesar de todos os opiáceos, apesar do falso brilho das “festas” alegres sem propósito algum, apesar dos falsos semblantes sorridentes que todos ostentamos. E quando você finalmente encontra uma pessoa com quem sente poder abrir a alma, para chocada com as palavras pronunciadas – são tão ásperas, tão feias, tão desprovidas de significado e tão débeis, por terem ficado presas no pequeno quarto escuro dentro da gente durante tanto tempo. Sim, há alegria, realização e companheirismo – mas a solidão da alma, em sua autoconsciência medonha, é horrível e predominante."
- Sylvia Plath
segunda-feira, 23 de janeiro de 2012
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