terça-feira, 10 de novembro de 2015

Líquida

Há um imenso oceano adiante
defronte aos meus olhos
ao alcance de um passo
uma onda
um gole da taça
um pingo de suor
uma gota de sangue
num pequeno frasco de esmalte

Eu não sei nadar
me debato dentro de uma gota á'gua
Sufocada
apenas meus olhos se reviram
abro a boca e sou enforcada.

segunda-feira, 1 de junho de 2015

dois mil e onze

Teu amor é polissêmico, teus interesses são malabaristas. Esses teus óculos de conotações inocentes são minhas fantasias mais lascivas.

Também tive de vestir as tuas fantasias, uma afronta à minha própria natureza; e tentar a sorte ao enfrentar a noite, as festas, não cair nos becos escuros e lábios errantes e secos que passeiam dentro da fumaça.

Essa história seria a mais comum e talvez eu nem desses ouvidos se não fossemos eu e você, eu e você, eu e você repetidas noites, cansados anos, um véu sobre os olhos, os lábios molhados e estava plantado teu veneno.


Eu viajei e voltei, eu voltei para o mesmo lugar, essa paixão é meu lugar no mundo, é minha casa, o olhar é o meu estado de espírito, meu abraço súbito é o retrato dos meus verbos desesperados, porque você é a coisa mais forte, vocábulo mais intenso o qual não há adjetivos para exprimi-lo; o diabo que empurra meus pés no acelerador pra chegar mais rápido ao canto mais escuro da cidade e te ver lá, dentro das suas possibilidades - meu.

sexta-feira, 15 de maio de 2015

Susto

Nesta última semana, numa mesa de bar, uma amiga disse que qualquer um conta uma história. Papel e caneta, pronto. Torná-lo convidativo, usando todas as armas para atrair um leitor é que não é fácil. Nada de novo.

Sempre achei escrever algo bastante difícil. Desde quando me pus a escrever, e sempre o fiz com pouca freqüência, faço com receio, tateando, pesando as palavras e muitas vezes negando aquilo que deixei no papel. Se todos têm um ritual, eis o meu: falar para não ser descoberta; com um vocabulário ainda tão magro, mesmo com as parcas possibilidades que encontro, dentro delas eu procuro a menos luminosa, aquela que me faz dizer o que desejo mas que parece sinalizar o contrário, e que me faz distanciar daquilo a que me propus.

Quando decido escrever, a imposição já se deu mesmo antes de eu assinalar a primeira letra. Invariavelmente, a minha decisão por escrever sobre algo nasceu no instante de algo novo, repentino, a coisa abrupta, aquela verve pela qual nem esperava. Então, é no escrever que por muitas vezes encontro o caminho para a adequação.

A realidade com que me deparo continuamente, e sobre a qual retomo com frequencia, é a falta de palavras para expressar determinadas posições, como um trauma – quanto mais se descreve, mais longe da realidade está, não parece ser autêntico -, me encontro diante deste instante. A consciência me dá uns solavancos, grosseiros e indelicados; retomo a mim, me julgo. Estou diante da alteridade, nela eu sou, sou eu ali proferindo diálogos enquanto estou sozinha em casa, ante meus fantasmas vivos. Desafio e calo, grito e depois lágrimas.

Sinto os pés em carne viva, pisando em espinhos mal-entendidos e juntando vírgulas para somar à boa de vontade que se dissolve com os ponteiros do relógio. À mesma medida em agonia, me dou conta de que não há como anular as experiências que os retratos antigos silenciam – justo aqui chega o abismo das palavras. 

Assino sem passar por mim.


quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Fumaça

Você que rouba as estrelas do céu, as põe sobre os ombros e anoitece a vida das pessoas, o que é que você entende de metáforas?

Você que não é só uma pessoa, é uma solidariedade que dispara mágoas e arrota parágrafos sem poesia, algo tão seco como alguém que mesmo sorrindo não emana graça porque carrega uma ruga longitudinal na testa e vai ter a mesma expressão seca a vida inteira.

Você que mantém a nação acordada enquanto fomenta o medo e sustos repentinos, fantasias assustadoras e aves negras que rondam ideais apodrecidos.

Você é covarde e amarra o teu povo em nós indefectíveis, conduzindo à subsistência e levando à boca em conta-gotas aquilo que você diz que ele precisa.


Eu vou escapar nas entrelinhas, nos sinônimos e na ironia; vou fugir nos verbos que você não conhece por que a sua visão é obtusa.
"Anônimo", eu sempre costumo refletir sobre o quanto o homem é uma criatura egocêntrica. Quando vemos a vida do outro colocamos a nossa própria existência como parâmetro; recorremos às nossas próprias experiências para forjar alguma ideia sobre a vida alheia. Mas esse método é falho, frustrações ou euforias particulares não são luvas tamanho único. É interessante estar atento às figuras de linguagem, fuja do senso comum. Por último, dê preferência ao silêncio pois ele nos poupa daquela aura pretensiosa que reveste  a ignorância. 
Você é sempre bem-vindo, apareça para falarmos sobre a vida.

quarta-feira, 25 de junho de 2014

i'm so sorry

Eu posso facilmente fechar os olhos e ouvir a canção, dali sou levada para os salões escuros e cheios de garrafas secas. Sinto o coração bater e levantar a minha camisa. Me causa uma dor eufórica. Eu nunca soube usar melancolia e nostalgia nos meus versos, os sentimentos a que sou submetida não cabem em  adjetivos repetitivos.

Quando essa música acabar vem outra menos importante desse disco, mas a sua marca já está aqui. Ela se fez enorme dentro de mim, em forma de gozo e ardor, inseparavelmente são responsáveis pela minha vulnerabilidade.

Eu não teria a intenção de dizer todas essas coisas de modo lógico, apesar de ser  possível. Mas não quero descrevê-las porquê jogam mais sal sobre as minhas lágrimas.

As palavras fogem, simplesmente. Não quero dar atenção a tanta tristeza, tanta merda, ninguém precisa saber desse inferno de desgraças, dessa sombra sobre a qual me encontro passiva de ações, anulando meus ideais por uma espécie de acordo ou amor.

Se eu pudesse escolher, marcaria toda a minha vida pela tempo psicológico, e por mais dor que esse infeliz estivesse disposto a me oferecer ainda assim ele seria o dono do meu desejo. Eu sei, algo sempre voltaria, sei que eu sempre gozaria dessas alegrias e dores, sempre sempre sempre sempre. Num acordo covarde e passional de desejo e posses.

Quando demônios eu descobri que poderia dirigir sozinha? Meu carro está todo arrebentado.

domingo, 16 de fevereiro de 2014

Domingo

Jeff Wall - A Sunflower/1995


Domingo, quase fim de férias. Levantei da cama quase ao meio-dia. Fui ao banheiro carregando o longo espelho. Desfiz-me da toalha, conferi a barriga e o tamanho dos seios. Talvez não esteja grávida, parece tudo tão normal. Saí do banho sem ter alimentado nenhum pensamento enquanto me ensaboava ou fechava a torneira do chuveiro.

Peguei um vestido qualquer, pus um filme e voltei a deitar. Reconheci num clarão que isso é também liberdade e que por hora me basta. Não tive intenção alguma de questionar a mim sobre o que faria na segunda-feira próxima.
Play, pause. Algumas ligações de longe sobre o fim de semana, "tá tudo bem". 
Desde que desliguei o telefone não mais ouvi minha voz por horas. Estou sozinha, e mais que isso, me sinto só. Apesar das conotações down que cercam a palavra solidão, para mim está tudo ok. Tudo bem, é razoável, é moderno, sinto-me lúcida com a cabeça repousando sobre o travesseiro.

Na juventude parecemos ter a ideia de que todas as relações são inseparáveis. Às vezes sinto que me antecipei a tudo isso, e ao contrário, em dias como hoje, o silêncio e a falta de explicações corriqueiras são sinônimo de conforto.
Me apavorei inúmeras vezes ao fim dos anos letivos, mais adiante, com o mudança do local de trabalho. Apenas hoje, com o semblante mais quieto e calejado, venho lembrar as palavras da minha mãe, "você não será a primeira a passar por isso".
Questionei inúmeras vezes por não "ser os outros", por ter percepções e reações peculiares, além de uma inteligência emocional abaixo de zero. Sei que um dia tudo isso passou, nem recordo sobre o dia em que levantei tranquila da minha cama e tudo já tinha se tornado habitual.

 Hoje vivo olhando minhas paredes e desejando que elas fossem mais distantes, mais largas... Quero pôr quadros, pender umas estantes para os meus livros e filmes, um banquinho no canto da sala, umas cortinas bonitas, essas coisas de ter um apartamento com personalidade e aconchegante. Toda essa coisa custa uma grana, pensei em comprar telas, tinta e molduras, fazer um negócio legal como o que vi num filme dias desses.

Volto a sentir sono. Será uma boa. Meus planos mais deliciosos surgem enquanto durmo.


quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

O golpe

Edward Hopper - Room in Brooklyn/1932


Depois de um dia de festa eu a vi. Tinha os olhos escondidos por trás dos cabelos. O sorriso já não estava tão alto, seu olhar acompanhava os gestos daquela gente. Ela me disse que parecia não reconhecer quem eram aquelas pessoas, que os rostos deixaram de ter fisionomias conhecidas, e tampouco aquelas histórias que eles contavam eram familiares. Não havia graça alguma, pois toda aquela comédia tornou-se trágica, não distinguir as piadas é o motivo do infortúnio.

- Que coisa mais terrível... – ela disse, reticente, bem a seu modo.

 Surgiu essa sensação sem um nome, isso que ocupa um espaço por dentro, onde ela não sabia me dizer ao certo. Um gelo no peito, um mal-estar no estômago, a ânsia da vida dentro barriga. Dores físicas não tão facilmente descritíveis e sem a perspectiva de cura pragmática. Uma pílula, um buraco, uma palavra, um afeto qualquer podem ser a saída. Ou o relógio.

Guardei para mim que o inferno às vezes cabe bem dentro do nosso peito e tenta furtar todas as boas razões que podemos encontrar nos dias futuros.

Ao fim da tarde ela caiu no sono. Nos encontramos horas depois. Estava assustada, mas de peito aberto: 
- Sonhei que fazia preces, estava só, dentro de uma igreja. Um teto alto, me senti acolhida e vigiada, perto de Deus.  

- Não se sinta só, tenhamos fé e paciência. Essas agonias são perecíveis.

Deve ser vida a luta pelo controle dessa euforia, a tentativa de aprender a nos encaixarmos dentro do tempo e nas horas cruéis onde não temos medo do mundo, mas só de nós mesmos.

Para a noite te desejo que expulse as ânsias e que teu sono se transforme nos versos da canção: “mas se eu tiro do lamento um novo canto/ outra vida vai nascer [...] Fazer desse chão minha vida”.

- Tenhamos fé, então – dissemos, numa prece mútua.

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Tardes raras

                    Eugène Delacroix                   


   Para J.O.

Aos vinte anos eu acumulava mais exclamações que vírgulas. Deve ser estupidez a essência da juventude.
Mas há a gente que faz as pausas reflexivas e dentro delas é que habita o pensamento de que o outro se poupa - e fazem melhor que o ignorante, como eu, que se coloca como o parâmetro do normal, que se vê como a criatura mais natural enquanto é só mais um imbecil egocêntrico.

Anos depois dos acontecimentos que são o cerne dessas linhas pouco claras, me pergunto com muita freqüência sobre as razões pela quais existe a necessidade de amparar nosso próprio ego nas distinções de outrem, nos nossos ídolos. Questiono também sobre o imperativo de diferir-se dos outros, de verbalizar na primeira oportunidade tudo que achamos nos tornar diferentes, enfatizando nossos excessos e incongruências - a tentativa ridícula e abusada de tornar a si próprio um ícone. As contradições são neon diante da minha vista, são um cão um latindo dentro da minha cabeça.
Enfim,
refiro-me a você, certa menina que habitou minha rotina uns anos atrás; quanto a mim, não sei o que fui feita dentro de sua vida... Dela eu gostaria de ouvir sua história a cerca da época da faculdade. Descobrir que impressões ela guarda em suas memórias, se foi tão feliz, porém, se existe um “mas” em algum momento de sua narrativa. Sobre o momento em que deixamos de ser um plural.

Naquele tempo rasguei em direção a ela inúmeros arroubos de semântica sem nenhum fundamento, vi piadas diante dos meus olhos enquanto o melhor era ter mesmo ficado calada. O silêncio é prático, é maduro. Descobri isso anos depois, não recordo e nem se faz importante quais foram as circunstâncias.
O fato é um arrependimento sobre a minha consciência e a lucidez que me invade como uma faca por que não tenho mais a possibilidade de recolocar pausas, de reconsiderar algumas colocações ou mesmo de interferir apenas com o sempre bem incumbido silêncio.
E há a dúvida, esse demônio que me assusta, me encharca de lágrimas, de dores e de constrangimentos. Não tenho sequer a sorte de cruzar o caminho daquela garota. Talvez seja um apelo inconsciente ao universo e ele tem me atendido, tenho o receio de que qualquer saudação efusiva tenha ares de surtos desnecessários, pouco verdadeiros. É justo por isso todo o meu medo, o meu receio - a falta de conhecimento do que são as verdades dentro das lembranças dela.
Se acreditar em Deus e no destino pode me servir de consolo, então todo o recorte da presença dela em minha vida foi a medida perfeita - “Ah!, era pra ser assim”  – é tudo de que preciso. Mas os ecos de sua aparência em mim negam tudo isso, recusam a finitude da convivência que construímos, o meu interesse do que tem feito em seu dia-a-dia não deixam a história chegar ao fim, e maior que isso, se tornam labaredas todas as vezes que escuto notícias suas, todas as vezes que seu contorno me invade o pensamento.
Dentro da amizade há espaço para o esclarecimento das razões, para o perdão, caso ele tenha cabimento, mas antes de tudo isso, e é aí que deposito minhas esperanças – existe sempre o espaço para uma conversa franca onde possamos enfiar o dedo no rosto, para as acusações viscerais. Pelo amor de Deus, um espaço para as verdades! E assim, o fim das minhas perguntas, eu gostaria de um epílogo. E que ele não demore.
Poucos anos depois venho construindo meu compromisso com a simplicidade e desprezo pelas pretensões - desacredito nas utopias dos homens especiais, dos tratamentos esnobes, da casa que não lhes cabe, do estúpido e vaidoso que passa por incompreendido; tolerância e humildade sempre couberam em toda parte. 

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Mal - estar

Eu necessito ser o espírito bélico diante das exclamações. E também enfrento a mim mesma sem direito a recuar. Feliz concessão são as lágrimas do arrependimento, Senhor Deus - de alguma forma meu corpo precisaria expressar as sensações absurdas a que meu passado me submete e quase todos os dias.
Afronta maior é a felicidade que consigo prever, ela foi construída para mim mas não estarei lá. Tracejo o caminho ao lado do arco-íris, mas o ponto final é a escuridão em sua totalidade. O caminho oposto são as sombras e me perco dentro delas. Tento enxergar, tatear, mas sei que estou amarrada e luto luto luto contra o mais oprimido que eu, eu luto contra a minha covardia e peço a Deus em favor da minha consciência. Porque sou homem, sou a mulher, eu padeço de todos os meus males mas mesmo assim não deixo de dar socos no ar.

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